O monotrilho da Linha 17-Ouro, idealizado e projetado desde os anos 1990 e prometido para este ano como uma solução rápida para conectar o Aeroporto de Congonhas à malha metroferroviária da capital, está prestes a completar 36 anos de atraso – tornando-se um símbolo da dificuldade de transformar concessões e privatizações em eficiência concreta para o cidadão.
Nos projetos feitos nas décadas passadas, a Linha 17-Ouro estava prevista para ter uma extensão maior, que alcançaria regiões como Jabaquara e contribuiria com uma malha de transporte ainda mais ampla na Zona Sul de São Paulo.
Contudo, essa extensão foi postergada indefinidamente e o trecho que está sendo concluído hoje – do Aeroporto de Congonhas até Morumbi — representa apenas parte do que foi imaginado inicialmente.
Uma obra prometida e sempre adiada
Quando foi incluída no pacote de concessões de metrô concedido à iniciativa privada em 2018, junto com a Linha 5-Lilás para a concessionária ViaMobilidade, a Linha 17-Ouro já acumulava anos de atrasos, rescisões contratuais e mudanças de cronograma.
Na época, em meados de 2010, o governo de São Paulo estimou que a obra ficaria pronta para a Copa do Mundo de 2014 – prazo que hoje se estende até junho deste ano, ou seja, 12 anos de atraso.
Ao longo dos anos, a obra passou por sucessivos problemas como contratos rescindidos com consórcios de construção por escumprimento de prazos; paralisações e retomadas com novas empresas e cronogramas revistos diversas vezes.
Atualmente, apesar de o governo Tarcísio de Freitas anunciar mais de 90% de conclusão da obra, com expectativa de operação para junho de 2026, a construção já se arrasta há mais de 12 anos, com uma extensão final menor do que a originalmente prometida.
E a incongruência não para por aí: o orçamento inicial era de R$ 3,17 bilhões. Até janeiro de 2023, o Governo gastou R$ 270 milhões dos cofres públicos. De lá pra cá, relatórios oficiais indicaram que o Metrô aplicou R$ 722,2 milhões no projeto, para acelerar a sua conclusão – ou seja – privatizou mas foi o dinheiro público que bancou.
É certo, governador, a ViaMobilidade inaugurar?
Privatização: a promessa de eficiência que não se materializa
O argumento central do governo Tarcísio para incluir a Linha 17-Ouro no mesmo pacote de concessões que a Linha 5-Lilás, foi a promessa de que a gestão privada traria eficiência, disciplina e cumprimento de cronogramas.
No entanto, os atrasos persistentes – mesmo após a concessão – acendem um alerta: entregar a obra à iniciativa privada não garante entrega no prazo ou melhor desempenho operacional. Não se questiona aqui, a privatização em si, mas a responsabilidade em torno desta, e que cabe ao Governo que a executa.
A ViaMobilidade, responsável pela operação, já enfrenta investigações e polêmicas em outras linhas que opera na região.
Por exemplo, o Ministério Público de São Paulo apura um possível desmanche de trens, em que a Via Mobilidade é suspeita de utilizar peças de trens da CPTM (patrimônio público) para reparar outros trens desde 2022; além do descumprimento do contrato de concessão, em razão do recorde de falhas (200 entre 2023 e 2025), com multas de R$ 40 mil por falha, e cujo promotor chegou a sugerir a possibilidade de rompimento do contrato. Sem contar outras questões relacionadas à morte de passageiros e o fechamento antecipado de linhas em finais de semana, não levando em conta a demanda.
Por sua vez, a Via Mobilidade se defende, afirmando que opera sobre as regras rigorosas do contrato, sem o descumprir, e que não deixa de prestar esclarecimentos aos órgãos reguladores, sempre corrigindo as falhas técnicas que surjam.
Sabesp e Enel: outras frustrantes privatizações
Impossível, quando se trata do Governador Tarcísio de Freitas, não levar em conta o paralelo com as privatizações da Sabesp e da Enel, a primeira, sendo a maior companhia de saneamento do Brasil, e as falsas promessas em torno destas. Concluída em julho de 2024, a privatização da Sabesp foi anunciada à população como promessa de redução de tarifas, além da ampliação de investimentos e melhoria no serviço de água e esgoto.
Porém, a realidade é diferente: tarifas mais altas e reajustes autorizados que impactam diretamente o bolso das famílias; relatos de racionamento e cortes de água em bairros da capital e região metropolitana, frequentemente associados à gestão privada e à lógica de lucro sobre serviço urbano essencial e críticas de que a privatização teria “institucionalizado a falta d’água”, transferindo para a empresa privada a responsabilidade estratégica pela segurança hídrica.
Quanto a Enel, tanto o governador quanto o prefeito de São Paulo, já se mostraram publicamente arrependidos. O que dizer da população, então?
Em conversa com funcionários da Sabesp, que não quiseram se identificar, as informações obtidas são revoltantes: “Depois que privatizou, a Sabesp só quer saber de lucro! Reduziram o pessoal nas ruas e nas centrais, descontam do salário dos funcionários, por exemplo, quebra de equipamentos e outros, exigem cargas de trabalho por vezes extenuantes, dentre outras situações que geram tensão e interferem na qualidade do serviço!”, relatou uma funcionária.
Para se ter uma ideia, este repórter tentou entrar em contato com a empresa, para tirar dúvidas sobre uma simples conta de água. Antes, o site permitia, por exemplo, a renegociação de débitos, além de um contato mais rápido pelo chat. Hoje, tais opções não são mais permitidas. Por telefone, até que um funcionário pudesse atender, foi necessário aguardar na linha 1h44 minutos.
As contas estão mais caras, o serviço bem mais precário e claro, todos os dias falta água nas torneiras de São Paulo. Onde está a eficiência prometida pelo governador Tarcísio?
Quando privatizar não é sinônimo de bons resultados
Tanto no caso da Linha 17-Ouro quanto na privatização da Sabesp, há um padrão que se repete: promessas de maior eficiência e benefício social que não acontecem.
A Linha 17-Ouro, com suas constantes revisões de prazo, mudanças de projeto e desafios de execução, mostra que a gestão privada, por si só, não eliminou burocracias, falhas de planejamento ou gargalos logísticos históricos. Sem contar as investigações contra a empresa que disputou e venceu a licitação, que a tornam no mínimo inapta de continuar.
Por sua vez, a Sabesp privatizada revela que, sem mecanismos públicos fortes de regulação e proteção social, serviços essenciais podem ser gravemente comprometidos. Já a Enel, basta uma forte chuva em São Paulo e a cidade inteira fica no escuro. Está correto?
Privatização implica em qualidade de vida, acesso básico e uma promessa de futuro que, até agora, não se concretiza. Depois, se algo der errado, quem se responsabiliza?
Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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