A Sabesp anunciou que a redução da pressão noturna no abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo resultou em uma economia de 2,8 bilhões de litros em apenas sete dias, entre 27 de agosto e 2 de setembro.
Segundo a companhia, a medida ajudou a conter a queda no nível das represas, mas moradores relatam dificuldades durante a madrugada e especialistas questionam a eficácia da estratégia diante de problemas crônicos na rede de distribuição.
No entanto, devido à falta de chuvas no período, os reservatórios não param de apresentar níveis mais baixos, o que resultou em nova medida: Um racionamento de água que começou, no dia 1º de Outubro, a partir das 19h.
Até então, desde o dia 27 de agosto, a pressão da água era reduzida diariamente das 21h às 5h na região metropolitana.
“Eu chego em casa às 20h40 e não posso cozinhar, não posso tomar banho direito, nem usar o banheiro. Eu não tenho caixa d’água. Como eu faço?”, questiona o analista de qualidade Rodrigo Sampaio, que mora em Artur Alvim e trabalha diariamente na Paulista.
De acordo com os números divulgados, o volume economizado equivale a uma vazão de 4.700 litros por segundo, o suficiente para abastecer uma cidade de 1,4 milhão de habitantes, como Porto Alegre (RS).
Para efeito de comparação, o Sistema Rio Grande, que atende a região do ABC, opera com 5.400 litros por segundo. A empresa reforça que a medida é emergencial e necessária diante da estiagem prolongada.
População se sente prejudicada
Apesar do resultado expressivo, especialistas em saneamento consideram que a redução de pressão é apenas uma solução paliativa.
“Boa parte do desperdício de água está nos vazamentos e nas tubulações antigas. Cortar a pressão pode até economizar no curto prazo, mas não resolve o problema estrutural”, afirma o engenheiro sanitarista Marcos Tavares, pesquisador da USP. Ele defende maior investimento em manutenção e tecnologia para o monitoramento da rede.
Moradores também relatam os efeitos da medida em seu cotidiano. “Depois da meia-noite, a água simplesmente some. Quem precisa lavar roupa ou encher a caixa-d’água nesse horário fica sem alternativa”, reclama a dona de casa Rosana Alves, moradora da zona leste de São Paulo.
Já o IDEC – Instituto de Defesa do Consumidor, uma Associação de moradores sem fins lucrativos, cobra mais transparência da Sabesp: “A população precisa saber claramente quais bairros são afetados e quais os planos reais para modernizar o sistema e nunca é demais lembrar, a responsabilidade pelo abastecimento é deles, da Sabesp e do Governo do Estado, uma vez que a sociedade paga a conta para garantir estrutura, qualidade e conforto prometidos.”, destacou em nota.
Níveis mais baixos em 10 anos
A redução da captação foi definida em conjunto pela ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e pela SP Águas (Agência de Águas do Estado de São Paulo), responsáveis pela gestão do Sistema Cantareira.
Especialistas alertam que a combinação de baixa pluviosidade e consumo elevado pode pressionar ainda mais os níveis do sistema, reforçando a necessidade de uso consciente da água.
A decisão de reduzir a pressão de água nos canos da população, ocorreu em meio à queda histórica do nível dos reservatórios, que no dia 1º de Outubro registrou apenas 27,09% do volume útil, o menor patamar em dez anos para o mês.
O coordenador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), Amauri Pollachi, destaca que a redução da pressão afeta de maneira mais severa os moradores das periferias. “Quem tem grandes caixas d’água, ou seja, população que está mais abastada, sequer sente qualquer efeito dessa medida. Enquanto a população que está na periferia não vai ter essa água à disposição no momento em que ela precisa”, explica.
Segundo ele, o problema se agrava em áreas mais altas, onde muitas casas dependem diretamente da pressão da rede da rua. “As pessoas que moram em locais mais altos e que estão nas periferias hoje já sofrem com um certo desabastecimento. Já existe isso. O que vai acontecer com a aplicação dessa medida? Vai agravar a situação do desabastecimento”, alerta.
Amaury conclui: “Depois que foi privatizada, a Sabesp tinha que olhar a tubulação mais antiga, que acaba tendo problemas com vazamentos e desperdícios. Isso é o que realmente afeta a população e causa os problemas com desperdício de água, não é o banho do povo que é um direito básico. Muita gente em São Paulo paga a taxa de até 10m3 e não consome nem a metade disso”.
Em julho de 2024, a privatização da Sabesp foi finalizada pelo Governo do Estado de São Paulo com a venda de 32% de suas ações, e a entrada de investidores privados. Entre eles está a Equatorial Energia, que assumiu o papel de acionista de referência.
A operação teve como objetivo impulsionar a universalização do saneamento básico no estado, com um plano de investimentos de R$ 69 bilhões até 2029, destinado a garantir o acesso de toda a população à água tratada e à coleta de esgoto.
O Governador Tarcísio de Freitas, por sua vez, usou mais da metade do dinheiro para custear as obras do metrô. A promessa de contas mais baratas, ficou apenas no papel.
Projeto de milhões para acabar com a crise hídrica
Em 2018, o então Governador Geraldo Alckmin, inaugurou a interligação do Rio Paraíba do Sul com o Sistema Cantareira, um projeto que levou dos cofres públicos R$ 555 milhões à época.
A ideia surgiu em meio a uma das maiores crises hídricas já enfrentadas por todo o Estado, em 2015, quando o nível do Sistema Cantareira chegou a ficar abaixo de 5%. Na época, bem como ocorre hoje, a estiagem foi considerada uma das maiores em quase 100 anos.
A ideia era que, um reservatório transferisse água para o outro, quando os níveis estivessem mais baixos. A transferência é claro, controlada, levando água da represa do Jaguari, em Igaratá, até a represa de Atibainha, em Nazaré Paulista, por meio de 20 quilômetros de tubulação.
O sistema tem capacidade para transportar até 5,1 mil litros por segundo para o Cantareira – volume que, ao longo de um ano, equivale a encher uma represa do porte da Guarapiranga.
Ainda em 2018, teve início outras obras que compõem o projeto de interligação, envolvendo também as represas Jaguari e Atibainha.
Para a conclusão total da obra, estão previstas as inaugurações das represas de Duas Pontes (Amparo) e a represa de Pedreira, que estão avançando e têm previsão de entrega para o final de 2026.
Estas, serão, por sua vez, interligarão o sistema Jaguari (Bacia do Paraíba) e a Atibainha (Sistema Cantareira).
O projeto de interligação foi planejado para permitir, em situações de necessidade, o fluxo reverso da água, abastecendo também o Vale do Paraíba. No entanto, a etapa inaugurada em 2018 contempla apenas o envio de água em direção à capital.
Afinal, até quando o paulistano terá que pegar essa conta para ter água em casa como e quando mais precisa?
Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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