Não foi uma, nem duas. Foram várias as denúncias de mulheres que sofreram violência obstétrica no Hospital Ipiranga, na zona Sul, principalmente, no instante do parto, sendo forçadas a optarem pelo parto normal, quando já haviam declarado preferência pela cesariana. Não bastasse isso, a arrogância, a falta de respeito e empatia com os pacientes é uma das queixas mais comuns.
O lixo espalhado, a falta de estrutura e de preparo das equipes, coloca em risco a vida das gestantes que passam diariamente pela unidade. A agressão verbal é constante, como se as gestantes cometessem delitos graves, com o simples fato de estarem “dando a luz”.
Reportagens recentes apontam ainda, que em casos mais tristes e severos por conta justamente da precariedade de atendimento, a culpa de um procedimento mal realizado, é apontada como sendo da mãe, como se a escolha do parto normal fosse sempre a melhor e mais saudável para todas as gestantes.
De um modo geral, as reclamações apontam: atendimento tardio ou negado; a culpa sempre sendo colocada nos ombros do paciente; a falta de atenção com as queixas das pacientes; um certo “abandono” na indução do parto; agressões verbais proferidas pelos médicos e procedimentos sempre forçados contra a vontade da paciente.
Eles colocam a culpa nas mães
Uma das pacientes, de 25 anos, ganhou neném no dia 26 de janeiro deste ano. Um dia antes, ao dar entrada no Hospital, os médicos lhe fizeram passar por exames de Hepatite C, HIV e Sífilis. Os exames deram resultado positivo e por consequência, mesmo sentindo as contrações, teve que aguardar por horas a realização do parto. “A enfermeira disse pra mim que eu apenas esperava porque os exames deram positivo, sendo que eu sabia que não tinha nada. Mesmo assim, aquilo ficou gravado na minha cabeça e eu me senti culpada, por ter que fazer a minha filha passar por aquilo também”.
Três dias depois, o resultado laboratorial confirmou que a mãe não tinha nenhuma das doenças indicadas inicialmente.
Em outro caso, a mãe de 32 anos foi internada no dia 21 de abril com complicações em razão de uma pressão alta e diabetes gestacional. Mesmo não tendo planejado nada, a mãe foi submetida a 3 tentativas de parto normal contra a sua vontade, mesmo ela expressando com veemência que desejava a cesariana.
“Foram 3 dias nesse processo de indução do parto, eu estava exausta, não aguentava mais. Ao pedir a cesariana para os médicos, eles queriam me colocar no soro. Recusei e um médico de outro turno me disse que como eu já havia feito outros partos normais, aquele não poderia ser de cesaria”.
A indução ao parto normal continuou até o 4º dia, quando o bebê finalmente nasceu. Contudo, a criança veio ao mundo com uma fratura na clavícula que, segundo a mãe, foi causada pela forma como ele foi retirado durante o parto. Também segundo a mãe, a equipe médica não percebeu o problema até que ela mesmo notou a dificuldade de respiração do bebê.
Violação dos Direitos Humanos
A presidente da Comissão da OAB de Direito Médico e da Saúde, Juliana Hasse, explicou que a violência obstétrica é caracterizada por condutas – ações ou omissões – que causem sofrimento físico, psicológico ou moral à gestante durante o pré-natal, o parto ou o pós-parto. São ações que violem os direitos humanos, a autonomia e a privacidade da mulher, desrespeitem-na ou a ofendam física, verbal, moral ou psicologicamente.
Juliana destaca ainda que procedimentos não autorizados e desnecessários também são considerados violência obstétrica.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) lançou em 2019, um posicionamento sobre as diretrizes que qualificam a assistência ao parto e asseguram o respeito à autonomia das gestantes. As diretrizes são as seguintes:
- Orientar, estimular e facilitar a presença de gestantes durante o trabalho de parto, conforme a vontade da gestante;
- Internar a gestante somente quando estiver em trabalho de parto ou necessitar de qualquer assistência em decorrência de complicações;
- Atender as gestantes sempre pelo nome, nunca por apelidos ou sinais que a desacatem.
Que as autoridades possam dar a devida atenção ao caso e tornar o atendimento no Hospital Ipiranga mais humano, como se deve e como se espera.
Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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